Ícones nos anos 1990, essas duas preciosidades seguem em plena forma e continuam a encantar

 

Atire a primeira pedra quem, ao navegar pelas redes sociais, nunca desejou uma motocicleta antiga! Sim, é cada vez mais comum nas redes sociais, uma infinidade de conteúdos sobre modelos históricos que já foram sonho de consumo no passado e que ainda são capazes de nos arrancar suspiros.

imagem honda xr 400 e xr 650

Texto: Laner Azevedo
fotos: Gustavo Epifanio

Dentre memoráveis modelos de outros tempos, a linha XR da Honda tem ganho cada vez mais destaque. São vídeos que mostram desde motos meticulosamente restauradas, a modelos em raro estado em plena ação, inclusive no off-road em expedições e competições. Tanto interesse não é para menos. As motocicletas da linha XR, que sempre se destacaram pela eficiência, robustez e simplicidade, agora atraem também o interesse dos jovens pelo visual imponente.

imagem honda xr 400

E foi justamente graças ao advento da internet que encontramos – e pilotamos – dois exemplares dos sonhos, ambos raríssimos no Brasil, inclusive na configuração e no estado de conservação. Uma incomum XR 400 NE03 de 1996 e outra novíssima e reluzente XR 650L safra de 1993.

imagem frontal honda xr 650

XR 400R: diversão na medida certa

É verdade que a primeira vista, a XR 400 equipada com os incomuns faróis duplos ao melhor estilo Baja – competições off-road realizadas na Califórnia – causa certa estranheza para muitos. Mas esse é um dos detalhes que justamente a tornam tão especial. Basta subir na moto para o estranho dar lugar ao admirável e a imaginação te levar longe, em competições em que tudo que se via a frente era a areia, e tudo que se precisava, além de uma boa dose de coragem, era de uma moto confiável.

imagem lateral honda xr 400

O comportamento da XR 400 nos surpreendeu, tanto pela leveza do conjunto quanto pela agilidade, sendo capaz de mudar de direção com rapidez tanto no uso urbano quanto no off-road. Mesmo com o guidão largo, rodar entre os caros é fácil e seu baixo peso de 119,5 kg a seco contribui e muito para a facilidade de condução. Tanto que, em muitos momentos, a impressão é a de estar sobre uma trail com metade de sua capacidade cúbica. Quanto aos enormes faróis, na prática eles em nada atrapalham.

imagem frontal honda xr 400

A posição de pilotagem é bem mais voltada ao off-road se comparada a atual XR 300L Tornado, com o condutor sentando mais próximo do guidão. Um indício de que os antigos modelos da linha XR eram mais focados no off-road, enquanto os atuais são mais versáteis, apresentando desempenho satisfatório em uma maior gama utilização.

imagem traseira honda xr 400

Seguindo à risca a receita das trail raiz, a XR 400 tem um assento curto e estreito para facilitar a movimentação sobre a moto durante a prática do off-road, contudo, sua espuma é mais macia que o da Tornado, surpreendendo positivamente no quesito conforto. Transpor valas, erosões ou mesmo encarar a buraqueira de nossas vias públicas se mostrou uma tarefa fácil para essa bela XR 400.

imagem piloto em ação com a xr 400

Para garantir controle, segurança e performance na pilotagem, a Honda não economizou em seu projeto. Seus amortecedores dianteiros são parrudos, com 43 mm de diâmetro, 280 mm de curso e nada menos que 18 ajustes de compressão e 12 de retorno. Na traseira, o amortecedor tem 16 ajustes de compressão, 16 de retorno e 300 mm de curso. Com tudo isso, dá pra abusar e encarar as pirambeiras mais sinistras.

imagem lateral do piloto em ação com a xr 400

Mas os encantos da XR 400 não param por ai. Há outros itens que merecem “menção honrosa”, como o motor. Arrefecido a ar e com capacidade de 397cm³, o monocilíndrico que equipa a XR 400 tem muito em comum com o motor que equipou a saudosa NX4 Falcon aqui no Brasil. Isso porque há uma enorme quantidade de componentes entre eles cujas diferenças são sutis, e muitos outros totalmente iguais, como cilindro, pistão, biela, virabrequim entre outros. Entretanto, componentes como comando de válvulas apimentado, maior carburador de 36 mm e maior taxa de compressão, permitem à XR 400 render 34 cv de potência máxima ao invés dos 30,6 cv da Falcon.

O melhor de tudo isso, acontece ao girar, de uma vez, a manopla do acelerador. O ronco grave cresce espantosamente rápido e é preciso uma boa dose de juízo para não se empolgar e manter a roda dianteira no chão. É quando fica fácil entender porque o modelo fez, e faz, tanto sucesso. Para conter tanta disposição, freios progressivos e verdadeiramente potentes. E olha que o conjunto é simples e não tem nenhum requinte técnico, pelo contrário, são mesmas de outros modelos Honda com a Falcon 400 e Tornado 300. Contudo seu peso reduzido – 23,5 kg a menos que Tornado –, contribuem para esse exemplar desempenho.

imagem da lanterna traseira da honda xr 400

Talvez pelo fato de ser uma motocicleta cujo projeto previa a utilização 100% no off-road mas que pode ser emplacada para ser curtida nas ruas – o que por si só já a torna ainda mais raro esse belo exemplar da XR 400R é daquelas motos que a gente se empolga ao pilotar. Não dá vontade de parar, e quando isso acontece, impossível não ficar admirando-a e todos os seus detalhes que a tornam atualmente tão incomum. Chassi em branco, motor em duas cores, balança de alumínio escovado, piscas minimalistas, o visual do painel que em 96 já era digital e, claro, os incomuns faróis duplos que, ao meu ver, são como toda a moto: demais!

XR 650L: força, robustez e conforto no superlativo

Embora a XR 400 seja daquelas motos que a gente pilota e depois fica desejando, ter pilotado esse belo exemplar da XR 650L foi sem dúvida daqueles privilégios da profissão que a gente jamais esquece. A experiência só reforçou nossa percepção de que se essa motocicleta não fosse tão extraordinária, não continuaria em produção desde 1993 até hoje para o exigente mercado americano.

imagem lateral honda xr 650

Ela segue a mesma receita a mais de 30 anos, que é unir a robustez e força ao conforto na pilotagem. Sim, apesar de ser uma trail genuína e de projeto antigo, uma de suas principais características é conforto – sem exagero, superior ao de muitas motos atuais. O mérito cabe a combinação de suspensões macias de longo curso que filtram bem qualquer buraqueira, com a ótima ergonomia com posição de pilotagem relaxada e o descente assento cuja espuma é mais macia que o atual padrão utilizado pela indústria. É de fato uma pena que não tivemos esse modelo comercializado por aqui. Para quem já pilotou a saudosa XLX 350R, o modelo serviria de base, sendo a XR 650L o Xiselão no superlativo.

imagem frontal honda xr 650

Como todo bom monocilíndrico dos anos 90, esse de exatos 644 cm³ esbanja torque já em baixas rotações e gira pouco. Nas estradas, ruas ou caminhos de terra que percorremos, a entrega nas acelerações e retomadas sempre foram surpreendentemente rápidas, parecendo entregar mais que os 42 cv a 6.000 rpm de potência máxima e torque de 6,52 kgf.m a 5.500 rpm declarados. É preciso uma certa dose de cuidado, pois dependendo do piso, ou ela destraciona a roda traseira, ou simplesmente empina. Pura diversão!

imagem do motor da xr 650

Nos vários quilômetros percorridos, ficou evidente que outra característica marcante desse motor é a suavidade, que aliás é comum a toda família de monocilíndricos RFVC, sigla que basicamente indica um refinamento técnico da época que buscava uma combustão mais eficiente, consistindo em 4 válvulas dispostas radialmente numa câmera de combustão hemisférica. Ele ronca bonito e compassado, faz menos ruídos mecânicos que a maioria dos motores monocilíndricos atuais e, apesar da idade, tem um sistema de alimentação por carburador que funciona tão redondo e preciso quanto um relógio suíço. Mérito da Honda e do dono por ter conseguido mantê-lo assim.

imagem do piloto em ação na terra com a xr 650

Suavidade também é um bom termo para se referir as suspensões dessa máquina. Calibradas de forma a priorizarem o conforto, elas filtram com grande competência desde vias de asfa.to em más condições, até os pedregulhos que enfrentamos em um dos trechos do Classic Enduro Tour, evento destinado a motos vintage que percorreu as montanhas da pequena Miguel Pereira, entre as cidades de Petrópolis e Vassouras no Estado do Rio de Janeiro. Mesmo em trechos ruins, a veterana XR 650 L encarou tudo com surpreendente facilidade, diferente de nós que o tempo toda só pensava em não deixar essa beldade ir ao chão.

imagem do piloto na terra com a xr 650

Apesar de sua aparência e porte imponentes, o que dá agilidade e facilita o controle dessa máquina é a sua ciclística. A combinação da acertada geometria com o baixo peso de 147 kg a seco – apenas 4 kg a mais que a Tornado 300 – dão a XR 650L o comportamento de uma moto menor, tamanha a facilidade de condução. Pilotar esses raros exemplares da XR 400R e XR 650L é uma experiência diferente e interessante, uma verdadeira e nostálgica curtição, seja pelo seu belo e incomum visual, pelo motor cheio de disposição ou pelo simples fato de haverem pouquíssimas unidades no Brasil.

XR, a sigla de respeito

A sigla XR significa “Cross Road”, indicando sua vocação para uso misto, tanto em asfalto quanto em terrenos irregulares, como estradas de terra e trilhas. A linha XR surgiu em 1979 com o lançamento da XR 500. Ao longo de mais de 4 décadasse tornou uma extensa família global de motocicletas que inclui dezenas de modelos variando de motos infantis a potentes máquinas aptas a encarar competições de enduro e rally.

imagem lateral da linha honda xr

No Brasil infelizmente tivemos poucas representantes dessa família, resumindo-se a apenas a XR 200R, XR 250 Tornado e recentemente a XR 300L Tornado, que voltou para a alegria dos fãs de modelos trail verdadeiramente capazes de encarar aventuras no off-road. Foi com essa máquina que rodamos até o Rio de Janeiro para testar as veteranas XR 400 e XR 650L e, de quebra, também participarmos do Classic Enduro Tour acompanhado o Fabio Del Core, o sortudo proprietário dessas duas belas XRs ao longo do percurso de 58 km – sendo 47 na terra – e outros vários outros participantes fãs das trail e off-road clássicas.

imagem hondas xr 400 e xr 650

Para quem curte a linha XR e toda sua história e procura por uma motocicleta moderna, robusta, econômica e de forte espírito aventureiro, a XR 300L Tornado é a moto certa. Rodamos mais de 1.400 km sob as mais variadas condições na terra e no asfalto e, em momento algum, ela nos decepcionou.

 

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